BANHO
(Lel Amaro)
Acordou naquele dia com preguiça de
levantar. Desligou o despertador e preferiu ficar mais alguns minutos na cama,
ouvindo o som da chuva que descia lentamente pelo telhado.
Observando que o tempo escoava como
a água pelas calhas, levantou-se meio indisposto a encarar novamente a rotina enfadonha
imposta por uma vida tempestuosa e lamacenta, onde seus sonhos foram atolados
no barro escuro, pisados e desconhecidos. Refletiu.
Arranjou alguma peça de roupa, visto
que tinha poucas secas e a chuva impedia a secagem das outras, também poucas.
Então, depois de ouvir alguma palavra desagradável resmungada por alguém,
seguiu para o banheiro, fechou a porta e ficou ali dentro, deixando o mundo do
lado de fora.
Ao olhar sua imagem no espelho, com
olheiras profundas, cabelo desgrenhado, tentou encontrar sua alma, ainda viva,
respirando o que conseguia através das pupilas entre cortinas arroxeadas. A
cada peça de roupa que retirava, era revelada uma parte de um corpo que, apesar
da aparência, não é velho.
Ligou o chuveiro, tossiu, pisou o
chão escorregadio, ainda gelado, e se misturou à água. E no meio das gotas,
começou a tocar em seus ouvidos uma canção bonita, um canto de fé, e não estava
mais tão frio.
A música envolvia sua pele, e a dor em suas
costas sinuosas, enrijecidas pelo tempo que insistiu em se adiantar, foi incapaz
de impedir seus movimentos tímidos e ritmados.
E se lembrou de quando era uma criança,
e seus sonhos reviveram quando sua alma venceu as pupilas, incorporada nas
bolhas de sabão, e abraçou a água do chuveiro como se fosse o seu par, e dançou
como se o tempo não existisse. Sua boca não fedia a podre, e pode sorrir.
Ali era um novo mundo, e dançava,
girava, sorria até que se viu em um palco. Todos o admiravam, e não se
envergonhou de estar nu, com todos aqueles dançarinos nus que o acompanhavam,
ao som dos tambores, kalimba, mbira, chocalhos e vozes.
Em meio ao negro do teatro, algo
branco e limpo o envolvia em sua dança, e se sentiu em paz, até que o tempo
voltou, e precisou fechar o chuveiro. O mundo bateu a porta e o espetáculo foi
interrompido.
Então se penteou, se perfumou, se
vestiu e se sentiu mais novo do que antes. O dia estava claro, e foi trabalhar,
mas não foi sozinho. A música continuou lhe fazendo companhia, cantando
discretamente que o sonho ainda vivia, e sua alma respirava.
SSSSSSS
