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sábado, 12 de setembro de 2015

Banho


BANHO
(Lel Amaro)



            Acordou naquele dia com preguiça de levantar. Desligou o despertador e preferiu ficar mais alguns minutos na cama, ouvindo o som da chuva que descia lentamente pelo telhado.
            Observando que o tempo escoava como a água pelas calhas, levantou-se meio indisposto a encarar novamente a rotina enfadonha imposta por uma vida tempestuosa e lamacenta, onde seus sonhos foram atolados no barro escuro, pisados e desconhecidos. Refletiu.
            Arranjou alguma peça de roupa, visto que tinha poucas secas e a chuva impedia a secagem das outras, também poucas. Então, depois de ouvir alguma palavra desagradável resmungada por alguém, seguiu para o banheiro, fechou a porta e ficou ali dentro, deixando o mundo do lado de fora.
            Ao olhar sua imagem no espelho, com olheiras profundas, cabelo desgrenhado, tentou encontrar sua alma, ainda viva, respirando o que conseguia através das pupilas entre cortinas arroxeadas. A cada peça de roupa que retirava, era revelada uma parte de um corpo que, apesar da aparência, não é velho.
            Ligou o chuveiro, tossiu, pisou o chão escorregadio, ainda gelado, e se misturou à água. E no meio das gotas, começou a tocar em seus ouvidos uma canção bonita, um canto de fé, e não estava mais tão frio.
            A música envolvia sua pele, e a dor em suas costas sinuosas, enrijecidas pelo tempo que insistiu em se adiantar, foi incapaz de impedir seus movimentos tímidos e ritmados.
            E se lembrou de quando era uma criança, e seus sonhos reviveram quando sua alma venceu as pupilas, incorporada nas bolhas de sabão, e abraçou a água do chuveiro como se fosse o seu par, e dançou como se o tempo não existisse. Sua boca não fedia a podre, e pode sorrir.
            Ali era um novo mundo, e dançava, girava, sorria até que se viu em um palco. Todos o admiravam, e não se envergonhou de estar nu, com todos aqueles dançarinos nus que o acompanhavam, ao som dos tambores, kalimba, mbira, chocalhos e vozes.
            Em meio ao negro do teatro, algo branco e limpo o envolvia em sua dança, e se sentiu em paz, até que o tempo voltou, e precisou fechar o chuveiro. O mundo bateu a porta e o espetáculo foi interrompido.
            Então se penteou, se perfumou, se vestiu e se sentiu mais novo do que antes. O dia estava claro, e foi trabalhar, mas não foi sozinho. A música continuou lhe fazendo companhia, cantando discretamente que o sonho ainda vivia, e sua alma respirava.

SSSSSSS