PRIMEIROS SOCORROS
(Lel Amaro)
Olha só, há tempos eu ficava
bastante chateado com aquele tipo de pessoa que te trata como uma maleta de
primeiros socorros. Sabe aquele tipo de pessoa que só te procura na hora da
dor? Então, é esse tipo mesmo, e eu era a maleta.
Uma maleta de primeiros socorros
fica lá, no cantinho dela, sem ser notada. De repente, alguém tem alguma dor de
cabeça, ou algum corte, ou mesmo que seja um leve resfriado. E lá vem a pessoa
correndo desesperada. Na hora da dor, muitos nem querem saber de tomar cuidado e
vão rasgando as caixas de qualquer maneira, amassando o blister de comprimidos
ou espremendo o tubo de pomada sem dó. Se preocupando mais com a dor após o
remédio, junta tudo dentro da maletinha, fecha e deixa lá no lugar. E a dor vai
passando, as feridas vão fechando e a maletinha vai ficando lá, no cantinho.
Assim acontece com as pessoas.
Durante muito tempo fui maleta de primeiros socorros, e socorria numa boa, sem
problema algum. Com o tempo, a sensação de ser usado e esquecido foi se
acumulando junto da bagunça que estava dentro de mim. Eu procurava receber as
pessoas com um sorriso, mas por dentro eu estava amassado, rasgado, e quando era
eu que precisava de cuidados as pessoas já tinham ido embora, e muitos nem
olhavam mais.
Lembro de uma vez, quando eu estava
na minha sexta série. Uma colega de classe veio conversar comigo, dizendo que
alguma pessoa próxima estava com sérios problemas, e eu escutei. Depois a
pessoa ficou bem, e quando eu vi, essa minha colega estava feliz e nem parecia
mais a mesma pessoa. Estava distante, se divertindo com outras pessoas.
De mesmo modo, há pouco tempo,
alguém que dizia ser meu amigo tinha problemas com situações passadas. Lembro-me
de estar cansado do meu trabalho e mesmo assim ficar até altas horas
conversando pela internet, acreditando que era parte da amizade. De repente,
ele também ficou bem, tomou distância, e hoje tem sua família em outros ares.
Eu sei que por fim esse tipo de
coisa me encheu, e eu resolvi parar. Eu me tornei uma maleta perdida, e comecei
a dar mais atenção à bagunça que estava dentro de mim. As pessoas que procurem
se curar sozinhas!
Hoje eu vivo distante, sem ser usado
– às vezes um pouquinho ainda, mas nem tem comparação com o abuso de antes. Confesso
que eu esperava estar mais feliz comigo mesmo. Não estou. Ainda sou um objeto
esquecido. Ainda sou lembrado como algo que funcionou um dia, e que não
funciona mais. No fim das contas, uma maleta de primeiros socorros esquecida,
quebrada, com medicamentos vencidos, não serve mais para socorrer. Na verdade,
pode até matar.
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