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sexta-feira, 25 de abril de 2014

Satanás no país da copa.

SATANÁS NO PAÍS DA COPA
(Lel Amaro)


            Lá pelos tempos de 2014, Satã saiu mais cedo da cama. Pobre Satanás... Estava tão deprimido o coitadinho que já não conseguia mais dormir. Já estava com olheiras profundas, e vivia se escondendo pelos cantos, isolado.
            Dona Capeta, sua esposa, não sabia mais o que fazer para animá-lo. Ela tentava conversar, mas ele se sentia envergonhado, e não queria tocar no assunto, com medo de acabar chorando na frente de seus escravos demônios e perder a pose dura de supremo senhor do mal.
            Mas um dia, em quando afiava as pontas do seu tridente, Dona Capeta o pegou desprevenido e descobriu a raiz do problema. Todos os dias, quando as turmas de espíritos desordeiros voltavam do serviço para apresentar os relatórios, era sempre a mesma coisa. A maioria voltava satisfeita por ter feito as mais temíveis diabruras ao redor do mundo, mas os responsáveis por um país específico sempre voltavam desanimados pedindo remanejamento.
            -Oh, poderoso Satanás, nós não queremos mais trabalhar nesse setor! Sempre encontramos o trabalho feito! E o povo sempre diz que a culpa é do Diabo, mas a gente nem tem a chance de cumprir o planejamento!
            E Satanás não aguentava mais aquela situação. Ele se sentia um incompetente, um imprestável. Já estava com medo de estar se tornando um cara bom... Mas isso ele não podia aceitar, ou não se chamava Diabo Capiroto Satanás! Ele tinha enxofre nas veias, e isso jamais poderia continuar assim.
            Foi então que ele vestiu o seu melhor disfarce e foi verificar de perto aquele lugar. Despediu-se de Dona Capeta e do pequeno Vermelhinho e subiu as escadas apressado.
            Quando ele enfim chegou naquele lugar, ficou totalmente abestalhado. As ruas estavam cheias de lixo como ele queria, os hospitais estavam lotados e com péssimo atendimento como ele queria, as crianças estavam sendo aprovadas analfabetas funcionais como ele queria, mas pra onde quer que ele olhasse, tinha um escravo demônio sem nada pra fazer. Apenas assistindo a coisa, chupando os dedos sem nem poder participar da brincadeira.
            As pessoas diziam que aquilo tudo era culpa do Diabo, mas estavam mais interessadas no futebol, aguardando uma tal de Copa do Tatu que reuniria pessoas vindas de outros lugares.
            E Satanás já estava soltando fogo pelas ventas, e virou de costas para dar uma trégua. Só que quando ele virou, deu de cara com uma banca de jornal e acabou vendo as fotos dos responsáveis por aquela situação tão constrangedora para sua equipe. Quem estava no comando da situação era uma senhora dentuça, e ela tinha a sua própria equipe de demônios.
            Satã estava de boca aberta quando sem mais nem menos um trombadinha passou a mão em seu cordão e saiu correndo. Já era demais pra ele. Então, convencido de que tinha sofrido uma amarga derrota, Satanás reuniu sua equipe de demônios frustrados e saiu daquele lugar antes que alguém roubasse mais alguma coisa.
            Pelo menos, aquele lugar ainda não tinha chegado ao padrão de qualidade Indústrias Satã S. A., mas ele precisava chegar rápido ao escritório e reunir todos os acionistas a fim de traçar planos para combater a concorrência. Dizem as más bocas que ele até abriria mão daquele setor vandalizado. Do jeito que este país está, nem Satanás quer, meu amigo.


VVVVVVV

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