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terça-feira, 29 de abril de 2014

Primeiros socorros

PRIMEIROS SOCORROS
(Lel Amaro)



            Olha só, há tempos eu ficava bastante chateado com aquele tipo de pessoa que te trata como uma maleta de primeiros socorros. Sabe aquele tipo de pessoa que só te procura na hora da dor? Então, é esse tipo mesmo, e eu era a maleta.
            Uma maleta de primeiros socorros fica lá, no cantinho dela, sem ser notada. De repente, alguém tem alguma dor de cabeça, ou algum corte, ou mesmo que seja um leve resfriado. E lá vem a pessoa correndo desesperada. Na hora da dor, muitos nem querem saber de tomar cuidado e vão rasgando as caixas de qualquer maneira, amassando o blister de comprimidos ou espremendo o tubo de pomada sem dó. Se preocupando mais com a dor após o remédio, junta tudo dentro da maletinha, fecha e deixa lá no lugar. E a dor vai passando, as feridas vão fechando e a maletinha vai ficando lá, no cantinho.
            Assim acontece com as pessoas. Durante muito tempo fui maleta de primeiros socorros, e socorria numa boa, sem problema algum. Com o tempo, a sensação de ser usado e esquecido foi se acumulando junto da bagunça que estava dentro de mim. Eu procurava receber as pessoas com um sorriso, mas por dentro eu estava amassado, rasgado, e quando era eu que precisava de cuidados as pessoas já tinham ido embora, e muitos nem olhavam mais.
            Lembro de uma vez, quando eu estava na minha sexta série. Uma colega de classe veio conversar comigo, dizendo que alguma pessoa próxima estava com sérios problemas, e eu escutei. Depois a pessoa ficou bem, e quando eu vi, essa minha colega estava feliz e nem parecia mais a mesma pessoa. Estava distante, se divertindo com outras pessoas.
            De mesmo modo, há pouco tempo, alguém que dizia ser meu amigo tinha problemas com situações passadas. Lembro-me de estar cansado do meu trabalho e mesmo assim ficar até altas horas conversando pela internet, acreditando que era parte da amizade. De repente, ele também ficou bem, tomou distância, e hoje tem sua família em outros ares.
            Eu sei que por fim esse tipo de coisa me encheu, e eu resolvi parar. Eu me tornei uma maleta perdida, e comecei a dar mais atenção à bagunça que estava dentro de mim. As pessoas que procurem se curar sozinhas!
            Hoje eu vivo distante, sem ser usado – às vezes um pouquinho ainda, mas nem tem comparação com o abuso de antes. Confesso que eu esperava estar mais feliz comigo mesmo. Não estou. Ainda sou um objeto esquecido. Ainda sou lembrado como algo que funcionou um dia, e que não funciona mais. No fim das contas, uma maleta de primeiros socorros esquecida, quebrada, com medicamentos vencidos, não serve mais para socorrer. Na verdade, pode até matar.


VVVVVVV

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