ATÉ LOGO
Lel Amaro
Para morrer basta estar vivo. Quem
de nós nunca ouviu essa frase? E não é que ela faz muito sentido? Engraçado
como falamos friamente estas palavras quando nos deparamos com notícias de
falecimentos nos jornais, ou mesmo no trabalho ou vizinhança.
Ainda que haja o respeito pela
família enlutada, essas palavras frias surgem das bocas confusas, que se
atrapalham e acabam por não observar a delicadeza. Dizem com firmeza de pensamento
e tenebrosa voz: para morrer basta estar vivo.
E aí a coisa fica estranha. Os
próximos ao defunto se indignam, os próximos a quem fala tecem reflexões sobre
a vida, e os demais, por vezes, até acham graça, zombam da situação...
E assim caminham os vivos, com a
morte na cara, porém, displicentes.
Sejamos realistas: quando morre
alguém por aí, é fácil dizer que ‘basta estar vivo’, mas quando a morte bate a
nossa porta, a situação muda. Por mais que as evidências nos mostrem uma foice
na esquina, estamos preparados é para a vida, e só. Mesmo que alguém se diga
preparado para a morte, quando ela chega, a força vai, o chão não é seguro, a
vida por um momento não faz sentido e tudo o que fica é um grande oco.
Por mais que alguém queira, não dá
para controlar um acontecimento que supera a força de qualquer exército. A
tropa mais armada e mais treinada que entrar em batalha inevitavelmente trará consigo
a memória de seus mortos. E neste momento, não há palavras que expressem a dor,
não á gestos que preencham o vazio; simplesmente não há o que se possa fazer.
Acredito que não há como vencer a
morte porque não se vence o que não existe. O que é a morte? Para muitos é o
fim, a certeza de nunca mais tocar em alguém, olhar nos olhos, sentir o
perfume. Não poder mais ouvir a voz de um ente querido ou mesmo dizer aquilo
que queria ter dito no café da manhã de ontem, mas faltou a coragem. Não vejo
dessa forma.
A morte dói para todos nós, porque
não há quem consiga raciocinar com o juízo perfeito nesse momento, mas quando a
dor passa, nossa mente pode se abrir para aquilo em que muitos como eu
acreditam.
A morte é como uma mudança de
emergência, com todo aquele desconforto de fazer tudo às pressas porque não há
mais tempo para esperar. Só que nessa mudança, não podemos ir todos juntos.
Tudo o que sabemos é que todos nós embarcaremos de repente, e que só foi paga a
passagem de ida.
Um dia todos nós nos encontraremos
mais uma vez, em um lugar muito melhor, assim espero, e vamos rir muito dessa
coisa toda. Vamos ver que a bagagem de todo mundo ficou perdida na estação, e
que foi bobagem se importar com tanta coisa pequena. Medalhas, cofres, troféus,
diplomas, tudo empilhado nos achados e perdidos.
Então, em nosso reencontro, a cada
pessoa que a gente rever será um novo sorriso e um novo abraço. Sentiremos de novo
cada perfume, ouviremos cada voz, e diremos tudo o que deve ser dito. Quem vai
morrer é a saudade, e essa sim, vai sumir pra sempre. Enfim, teremos a certeza
de que nunca mais nos separaremos.
É nisso que eu acredito, e assim
pretendo continuar acreditando. Morte é apenas uma viagem, e viagens costumam
ser muito boas. Por isso, prefiro e escolho não dizer adeus a ninguém. Melhor olhar
no rosto de quem vai, e mesmo sentindo a dor da despedida, dizer com muita fé:
até logo, meu querido amigo. A gente se vê logo mais.
VVVVVVV