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domingo, 24 de novembro de 2013

Tempo

         Tempo
                                                                (Lel Amaro)

O tempo passa...
Duas pessoas se conhecem, se descobrem, se conquistam. Na fúria hormonal adolescente despertada ferozmente por um beijo, um toque... O sangue ferve nas veias, queima neurônios, e os dois, como animais, ignoram fatores como tempo, espaço, e essas coisas todas que afetam os humanos. Sem mais delongas, a semente é semeada.
Desespero...
Correria...
Pavor...
Culpa...
O tempo passa...
Após alguns meses encubado nasce um herdeiro, sem herança, sem projeto. Bem vindo ao pequeno e improvisado mundo particular daqueles que voltaram a serem humanos racionais. E cresce, se desenvolve, se conhece, se entende por gente. Não é gente normal, comum; é gente diferente. E a diferença começa a incomodar, e do incômodo, vem a exclusão. E assim cresce, sem amigos e sem infância.
Zombaria...
Exclusão...
Tristeza...
Solidão...
Dor...
O tempo passa...
E a criança não é mais criança – e nem foi. Não tem idade para ser adulto – e já é. Segue seu caminho, dizendo palavras de esperança ao mundo, sem receber esperança em troca. Mas o mundo, de vêz em quando, envia pitadinhas de amizade. Pessoas que juram amizade, na busca de uma palavra amiga, um ombro... E o criandulto acolhe, consola... E o amigo, refeito, comemora a volta por cima com os velhos amigos. E o criandulto fica... De longe.
Descartado...
Esquecido...
Magoado...
Amargo...
Só...
O tempo passa...
E o agora sim adulto, começa a olhar pra trás. E a vida já não vale mais a pena como sua fé mostrara outrora. E os planos começam a se desfazer. Os projetos começam a perder forma. E se vê assim, vazio. Sente que viveu para os outros. Sente que não encontra mais os outros.
E quando, por acaso, encontra os outros, eles não o reconhecem mais. E dói olhar pra trás. Dói mais olhar pra frente. E ele não quer mais ver.
Fecha os olhos...
Apaga a luz...
Sente frio...
Para...
Gela...
O tempo passa...
E assim percebe que nem viveu.


V V V V V V V

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