Tempo
(Lel Amaro)
O
tempo passa...
Duas
pessoas se conhecem, se descobrem, se conquistam. Na fúria hormonal adolescente
despertada ferozmente por um beijo, um toque... O sangue ferve nas veias,
queima neurônios, e os dois, como animais, ignoram fatores como tempo, espaço,
e essas coisas todas que afetam os humanos. Sem mais delongas, a semente é
semeada.
Desespero...
Correria...
Pavor...
Culpa...
O
tempo passa...
Após
alguns meses encubado nasce um herdeiro, sem herança, sem projeto. Bem vindo ao
pequeno e improvisado mundo particular daqueles que voltaram a serem humanos
racionais. E cresce, se desenvolve, se conhece, se entende por gente. Não é
gente normal, comum; é gente diferente. E a diferença começa a incomodar, e do
incômodo, vem a exclusão. E assim cresce, sem amigos e sem infância.
Zombaria...
Exclusão...
Tristeza...
Solidão...
Dor...
O
tempo passa...
E a
criança não é mais criança – e nem foi. Não tem idade para ser adulto – e já é.
Segue seu caminho, dizendo palavras de esperança ao mundo, sem receber
esperança em troca. Mas o mundo, de vêz em quando, envia pitadinhas de amizade.
Pessoas que juram amizade, na busca de uma palavra amiga, um ombro... E o
criandulto acolhe, consola... E o amigo, refeito, comemora a volta por cima com
os velhos amigos. E o criandulto fica... De longe.
Descartado...
Esquecido...
Magoado...
Amargo...
Só...
O
tempo passa...
E o
agora sim adulto, começa a olhar pra trás. E a vida já não vale mais a pena
como sua fé mostrara outrora. E os planos começam a se desfazer. Os projetos
começam a perder forma. E se vê assim, vazio. Sente que viveu para os outros.
Sente que não encontra mais os outros.
E
quando, por acaso, encontra os outros, eles não o reconhecem mais. E dói olhar
pra trás. Dói mais olhar pra frente. E ele não quer mais ver.
Fecha
os olhos...
Apaga
a luz...
Sente
frio...
Para...
Gela...
O
tempo passa...
E
assim percebe que nem viveu.
V V V V V V V

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