ONDE ESTARÁ O MEU AMOR?
(Lel Amaro)
Olha só, acredito que a dúvida que eu abordo
possa ser a dúvida de muitos outros que estão por aí, mas que diante dos
esmagadores desvios comportamentais e distorções de valores da sociedade atual,
se sentem espremidos em um canto sombrio, onde fica a saudade de um tempo que
não pudemos vivenciar. Apenas escutamos ecoar a pergunta vinda de bocas
chorosas que calam, mas não querem calar: onde estará o meu amor?
Essa pergunta já foi cantada por uma
grande baiana, em versos anotados por um notável compositor paraibano, e
permanece sem respostas. Ninguém sabe, mas muita gente já viu e já sentiu.
O amor é lindo! As pessoas
suspiravam dizendo essa máxima, assistindo peças românticas nos teatros, escrevendo
cartas em papéis bonitos decorados, preparando serenatas sob o risco de receber
um balde de água fria na cabeça... Foi um tempo que cercas eram puladas, mas
para encontrar aquela menina superprotegida pelo pai, ou para um encontro em
uma tarde bonita, sob uma frondosa árvore à beira de um lago cristalino.
Num tempo onde existia muito ódio e
preconceitos declarados, o amor sobrevivia à duras penas, mas sobrevivia e era
real! Se alguém dizia amar outro alguém, é porque amava mesmo, e fim de papo!
E o amor que era lindo nos livros,
começou a ser cantado nas rádios, gravado em discos de 78 rotações por minuto,
daqueles de goma laca, chegou às telas e preto e branco das televisões de tubo,
daquelas que a imagem começava a despencar logo na hora do beijo final e
deixava as mocinhas histéricas. Nesse mesmo tempo, com escorregadas tímidas e
maliciosas, o amor também começou a despencar.
Desonestamente, o ódio, que era
repelido, começou a ganhar espaço nas radionovelas, nas telenovelas, no cinema
e até nos livros. As armações começaram a ser trabalhadas, porque mostrava a
luta do bem contra o mal, e blá blá blá... E foi assim que o mal foi ficando
cada vez mais íntimo das famílias de bem como algo suportável de se ver, e até
divertido de se ler ou assistir. Tornou-se até mesmo inspirador. E o amor, coitado,
desapercebidamente, era marginalizado.
Outrora cantava-se “eu sempre vou te
amar”, “tu és divina e graciosa”, elogiavam-se os olhos, os sorrisos, e quando
o povo se deu conta, chegamos nos anos 90. Aí a coisa já estava encaminhada
para o fim. O bonito não é mais a conquista, mas quem pega mais, beija mais,
usa mais e se torna popular por ser superficial. E nessa moda de peitos, bundas
e pintos revelados, o amor se torna brega, démodé, antiquado, careta, e tantos
quantos forem os adjetivos negativos e pejorativos que a sociedade dita
descolada e vida louca quiser dar ao sentimento mais nobre, que eu quero muito
acreditar que ainda tenha forças para existir.
Não é porque eu estou partindo do
ponto de vida artístico que tudo isso é apenas fantasia. A arte e a vida real
se refletem e se misturam, e nada é completamente dissociado. Tudo isso mostra
como tem sido as atitudes das pessoas umas com as outras principalmente da
década de 90 para cá! O amor foi reduzido ao nível banalizado de uma mera
expressão de efeito, e olhe lá! As pessoas fazem promessas mentirosas em nome
de um falso amor e em poucos meses, senão dias, dão uma banana para o parceiro
ou parceira, sem o mínimo de respeito e consideração com o sentimento alheio.
Com sentimento não se brinca.
Coração não é brinquedo. As
pessoas deveriam se dar conta de que atitudes ruins são cadeados fortíssimos,
capazes de trancar corações magoados. Aqueles que ainda buscam sustentar
a esperança de viver um amor real, encontram corações trancados e feridos, e
acabam por serem bloqueados pela frieza e desconfiança. E então voltamos à
nossa pergunta, lá do início: onde estará o nosso amor, se é que ele ainda
existe e sobrevive?
O
amor ainda existe sim, e sobrevive enjaulado, com ânsias de viver em liberdade
e reinar novamente entre corações, olhos e sorrisos sinceros. Ele grita em cada
olhar solitário implorando por espaço, mas é abafado pelo medo das experiências
sofridas com atitudes ruins de pessoas vazias e inconsequentes.
Eu
acredito que o amor é forte o bastante para quebrar os cadeados de medo e
decepção, e abrir os corações que estão trancados na escuridão para um horizonte
bonito, suave e livre de amarras. O amor não é vulgar, não é brega, nem démodé.
O amor continua lindo, continua vivo, e está esperando e procurando quem o
queira. Todos nós podemos amar. O amor está bem aqui. Chega de perder tempo com
molecagem, pelo amor de Deus...
VVVVVVV

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