Translate

Aqui no blog você pode conhecer um pouco dos meus textos, minhas opiniões, minhas preferências... Boa leitura!

domingo, 28 de setembro de 2014

O Jardineiro

O JARDINEIRO
(Lel Amaro)



            Um jardineiro trabalhava cuidadosamente em seu jardim. Era um jardim enorme, com flores de todas as cores. O jardim era tão colorido que até os anjos vinham visitá-lo, e saiam felizes, encantados com seu elaborado perfume.
            Para manter o jardim saudável, todos os dias o jardineiro regava as plantas, adubava, retirava as pragas e as ervas daninhas. Nenhuma planta ficava sem seus cuidados.
            De vez em quando, uma ou outra planta crescia mais do que as outras, e esparramava suas folhas e flores sobre as plantas vizinhas. O jardineiro sabe que para viverem saudáveis, todas as plantas do seu jardim precisam receber a luz do sol. Então, com muito carinho, mas com decisão, o jardineiro poda os galhos que estão crescendo mais do que deveriam, e a planta que cobria as outras já não é tão grande.
            Todas as plantas amam o jardineiro, mas nem todas o entendem do mesmo modo. Algumas o chamam de Olorun, outras de Jeová. Há ainda aquelas que o chamam de Tupã, Oxalá, Brama, Zambi, Alá, e vários outros nomes.
            O jardineiro, independente de como é conhecido por cada uma, cuida de todas as plantas com o mesmo amor, e faz com que a luz do sol brilhe sobre todas elas, todos os dias. Assim, ele garante o equilíbrio das cores e o delicado perfume campestre, para que o jardim permaneça vivo e saudável. Este é o jardineiro, e nós conhecemos as plantas.

RRRRRRR

sábado, 27 de setembro de 2014

Quer um docinho?

QUER UM DOCINHO?
(Lel Amaro)



            Olha só, hoje é ao mesmo tempo, um dos dias mais doces e mais azedos do ano. Dia de Cosme e Damião. Doce porque as crianças que podem saem pelas ruas em busca de seus saquinhos abarrotados de guloseimas, para alegria dos dentistas e pediatras. Azedo porque as crianças de famílias protestantes são aterrorizadas com histórias sobre macumbas e demônios.
            Então, vamos tentar entender o que acontece. Como provavelmente esse texto vai gerar o famoso mimimi em algum lugar, serei breve e tentarei simplificar ao máximo, apenas para observar a atitude das pessoas.
            Quando eu era criança, odiava o dia de Cosme e Damião. Sendo de família evangélica, eu era proibido de comer doces por umas duas semanas a partir do dia 27 de setembro. Eu ouvia aquelas coisas todas, que os doces estavam encapetados, que foram oferecidos ao cramunhão, e ficava meio assustado. O pior é que eu era obrigado a estudar, e ficava quase babando olhando as outras crianças se lambuzando de doces. Curiosamente, assim como eu, essas crianças sobreviviam saudáveis até as férias de dezembro.
            Eu cresci e busquei estudar um pouco para entender o grande perigo desses doces. Procurei saber um pouco mais da história de Cosme e Damião, e vi que eram pessoas boas, que praticavam o amor. Vi também que a tradição de distribuir doces se popularizou a partir das religiões afrodescendentes, como a Umbanda e o Candomblé, onde Cosme e Damião são sincretizados com Ibeji.
            Aí a coisa começou a ficar às claras na minha cabeça. O problema dos saquinhos está na velha e retrógrada prática da intolerância religiosa. Essas religiões e suas entidades são demonizadas pelos protestantes, que afirmam fervorosamente que aqueles que distribuem os doces são adoradores de demônios. E digo mais: segundo os protestantes, basta comer um saquinho de doces e você estará trazendo maldição para sua vida.
            Péra lá, né? Alguma coisa está muito estranha nisso tudo. Vou dar um exemplo bastante simples para que todos entendam. Quem frequenta ou já frequentou igrejas protestantes provavelmente já viu as famosas campanhas, com sete dias disso e sete dias daquilo. Se você quer saber, muitos, e digo muitos mesmo, fazem as campanhas, jejuam, dão “oferta$ e$peciai$ semeando a vitória”, e não recebem a graça desejada.
               Agora vem me dizer que uma balinha vai bastar pra destruir a vida de alguém? Quem é mais forte, o Deus que recebe as orações nas campanhas, o jejum e as oferta$ e$peciai$, ou o Demônio que, segundo dizem, está debaixo dos pés dos fiéis e ainda consegue dar suas escapadelas pra lamber as balinhas? Diante de tanta eficácia, não seria conveniente então substituir as campanhas de sete dias por saquinhos de doces ungidos instantâneos?
            Conheço pessoas de várias religiões e convivo muito bem com elas, até porque religião não define caráter de ninguém. Vivemos em um país livre, onde temos o direito de acreditar na religião que estiver mais de acordo com a particularidade de cada um, e devemos ser respeitados como cidadãos livres. Antes de olhar, por exemplo, para um umbandista, que pratica o amor e o respeito ao próximo e à natureza, que valoriza os mais velhos e canta com brio a sua história e a história do seu povo, e dizer que ele é um adorador do demônio, seria mais sábio e mais elegante conhecê-lo, estudar sobre sua religião e entender a verdade que existe por trás do fanatismo.
            O que essas crianças protestantes passam, assim como eu passei um dia, é cruel demais. Um saquinho de doce para um adulto é pouca coisa, mas para uma criança é muito. Se sentir excluído machuca. Enquanto todos comem seus doces, pra essas crianças sobra o sabor amargo da exclusão. Principalmente para as pobres. Quando o dinheiro dava, eu ganhava algum doce para aliviar um pouco, mas nem sempre dava.         
           Acredito sinceramente que possa ter alguma boa intenção por parte de alguns protestantes, mas se é para ser assim, então que separem parte do dízimo que recolhem e comprem doces para suas crianças. Façam que elas se sintam amadas, e que não se sintam menores ou menos privilegiadas do que os coleguinhas de outras religiões. Se não querem os saquinhos com as imagens dos santos, façam saquinhos com desenhos infantis, sem dar espaço para ataques ridículos e preconceituosos aos outros. As crianças não são culpadas de suas conclusões religiosas, e esse preconceito todo, com o perdão do trocadilho, já encheu o saquinho. Ah, só pra não esquecer: macumba é uma árvore.


JJJJJJJ

domingo, 21 de setembro de 2014

Souvenir

SOUVENIR
(Lel Amaro)



            Eu vou morrer. Tem gente que se choca, fica com medo, mas isso é tão normal. Todo mundo morre. Tá certo que não é muito bom ficar imaginando último segundo de vida neste plano, mas pensando bem, a morte até que trás algumas vantagens no pacote. Pelo menos para mim e para quem mais acredita, a morte é o começo de uma nova realidade, sem os problemas do mundo aqui, dependendo de nossas escolhas.
            Enfim, vou cruzar a temida porta que separam os inconsequentes das consequências irremediáveis. Vou deixar pra trás esse mundo de manipuladores e manipulados, torturadores e torturados, senhores e escravos. Vou deixar esse mundo de extremos e mais extremos, extremamente bipolar. Um mundo seletivo, como uma linha industrial que separa o que está no padrão e descarta o resto. Vou deixar de ser refugo.
            Nesse momento, os gritos, ofensas, autoritarismo e arrogância dos que se acham grandes não serão nem mesmo a mais remota recordação. Isso para mim. Pra quem ficar, a vida transformará tudo em amargo remorso e vergonha. A sensação de que dominar os outros tomando como base o próprio umbigo não valeu de nada vai remoer as mentes constantemente, invadindo os pensamentos de dia e os sonhos à noite.
            Eu vou morrer, e você também vai. Todos nós vamos. Pode ser que eu vou morrer daqui a muitos anos, ou daqui a uma semana. Talvez eu morra hoje. Você nem sabe se vai viver até o final da leitura desse texto, e se sobreviver, significa que eu vivi a tempo de publicá-lo. A nossa vida é frágil, e quando menos se percebe, pode acabar. Não permitir que cada um viva a sua vida é egoísmo, e tem muita gente assim. E eu pergunto: o que você tem feito?
            Eu vou morrer e deixo um aviso de lambuja pra você. Se você gosta de transformar as pessoas ao seu redor em marionetes, eu recomendo que mude sua atitude, porque você é um babaca. As pessoas não te admiram como você pensa, e não fazem o que você quer por respeito. Na verdade, as pessoas te aturam, e obedecem por medo. Mas sabe de uma coisa? Assim como eu, essas pessoas vão morrer, e a nossa maior vingança será a lembrança que deixaremos de souvenir. Aguardaremos as flores regadas com suas lágrimas.


VVVVVVV

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Queda

QUEDA
(Lel Amaro)



Os dias escoam mais depressa.
Não tem tempo, não tem sabor.
O sol não me incomoda como antes.
Nos encontramos quando vou de um ponto a outro, e não trocamos palavras.
Entre quatro paredes, meus segredos não podem ser iluminados.

Prefiro o frio.
Silencioso ele entra sob meus cobertores e me desperta entre o bater de dentes.
O frio que me fere a pele fere menos do que o frio dos olhares.
Quando olhares me encontram,
Quando não sou transparente, intangível.

E quando o sol se põe ensaio algum conforto.
A luz da lua não me chama como antes.
Não tem estrelas nem nuvens nem vento.
Os pirilampos ainda cintilam o verde da esperança entre as vacas que ruminam.
E quando elas se cansam de seu chiclete improvisado, adormecem.

Acho que as vacas ainda sonham... Assim como os pirilampos.
Ainda que devorem suas carnes, elas não desistiram do leite.
Nem eles da luz.
Sei que eles ainda se acendem.
Vez ou outra, algum perdido invade o meu quarto e eu perco o sono em seu pisca-pisca.

E as noites escoam mais depressa.
Dias e noites cada vez menores.
Lembram a areia de uma ampulheta.
Vai acabar o tempo.
A noite, o dia, a dor...


SSSSSSS

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

CARTINHA AOS LEITORES

CARTINHA AOS LEITORES


            Queridos leitores do blog,
            Gostaria de me desculpar por estar um pouco ausente. São tempos difíceis para mim e eu estou procurando me dedicar ao meu emprego e outros assuntos particulares. Estou cheio de ideias e não vejo a hora de voltar ao blog com força total.
            Abraços carinhosos a todos!
            Att,
            Lel Amaro


LLLLLLL

domingo, 27 de julho de 2014

Quando eu morrer

QUANDO EU MORRER
(Lel Amaro)



            Quando eu morrer, não quero pessoas chorando em volta de mim. Fico assustado com a ideia de ter pessoas que hoje eu não vejo de perto e não ouço nem de longe em volta de mim, esfregando os narizes melados e tomando cafezinho com biscoitos. Quero apenas pessoas que tiveram vida comigo, comendo salgadinhos, docinhos, bebendo sucos e refrigerantes, e rindo bastante ao recordar bons momentos vividos.
            Quando eu morrer, não quero gritos de lamentos. Quero minhas músicas preferidas, dos melhores discos, ou ao vivo, embalando conversas leves e descontraídas. Quero aquele grupo de pessoas compartilhando violões e cervejinhas, sorrindo e recordando minha vida. Quero que toquem minhas músicas.
            Quando eu morrer, não quero ser colocado em nenhuma sepultura dessas feiosas, mal acabadas e de péssimo gosto. Nem quero ser enterrado no chão, com pás de terra em cima de mim. Quero um túmulo de boa aparência, que desperte a alegria da boa lembrança, e não a tristeza de seja lá o quê. Seria maravilhoso ficar em meu quintal...
            Quando eu morrer, não quero flores ao lado ou sobre meu corpo. Plantem flores ao lado de minha sepultura, e cuidem bem de meu último cantinho neste mundo, enquanto minha alma aguarda a restauração da minha carne. Deus me livre de acordar e me sentir em uma ruína abandonada!
            Quando eu morrer, não fiquem assustados. Morte não tem hora marcada com ninguém. Pode ser daqui a muitos anos, ou pode ser antes que você termine essa leitura. Ela simplesmente vem, e quem fica é que se vire. A vida é um presente, e permanecer na vida é uma conquista diária. E se tem que ser assim, então que sejamos criativos nesse momento, e façamos essa hora brilhantemente inesquecível, e que possamos aprender a agradecer a Deus pela oportunidade que temos de viver cada dia.
            Quando eu morrer, por favor, viva mais e melhor do que eu tiver vivido. Viva as festas, as músicas, as amizades, o quintal da sua casa e o perfume das flores. Viva intensamente, sem medo da morte. Viva sem se importar com as opiniões e julgamentos de quem pensa que tem direitos sobre você. No final, todos virarão pó, e pode ser que por ironia acabem por se misturar. Então, viva intensamente!  O resto é bobagem.


VVVVVVV

terça-feira, 15 de julho de 2014

Música

MÚSICA
(Lel Amaro)



            Quer saber de uma coisa que eu já perdi a conta é gente tentando definir música. São teorias, tratados e mais tratados intermináveis.
            Penso que a música é algo natural e divino, como as plantas, por exemplo. Muitos se tornam como botânicos musicais, e começam a estudar a fundo a música, buscando compreendê-la e aprimorá-la. Então começam a criar canteiros, cercas, limites e mais limites, e vemos inúmeros exemplares de música bonsai sendo expostas a ouvidos facilmente saciáveis por aí a fora.     Penso que quanto mais natural for a sensação causada pela música, mais saborosa ela será, como é saboroso comer uma fruta fresquinha colhida na hora. A música não deveria ser cercada de frescuras; a música deveria ser permitida como ela vem e quando ela vem de dentro de nós. O trabalho seria o de permitir que ela cresça, e não de freá-la.
            A boa música nasce no coração, cresce na mente e se torna capaz de cativar nossas almas. E existem músicas para todas as ocasiões. Quando nos lembramos de histórias tristes, por exemplo, a música tem o poder de fazer feridas cicatrizadas voltarem a sangrar.
            Essa música cutuca lá no miolo do peito e faz a gente sentir um aperto indescritível. Uma forma de emoção estranha entre a beleza e a tristeza. Sei lá... Melhor sentir do que tentar entender. Até porque essa mesma música pode trazer a esperança de que tudo pode melhorar, e enquanto tentamos decifrar o indecifrável, ficamos estagnados vendo o tempo passar. Um beija-flor não tenta decifrar a doçura. Ele apenas vive do néctar.
            A música brota como uma erva que se espalha tomando posse do ambiente e o enchendo de vida. Ela nos atrai como beija-flores em busca do alimento. É como a trombeta, entorpecente, alucinante e envolvente.

            Música é algo meio assim, meio assada, meio crua, deliciosa, quase intragável e maravilhosamente apaixonante. Está na natureza, na literatura e nas estrelas. Sim, ela está em todos os lugares, e não há como fugir de sua presença. Ainda que você esteja em completo silêncio, este silêncio teve um começo e provavelmente acabará. Até o silêncio é música! Não tente entender a música. Não ouse fugir da música. Apenas cante, dance e viva!

JJJJJJJ