QUER UM DOCINHO?
(Lel Amaro)
Olha só, hoje é ao mesmo tempo, um
dos dias mais doces e mais azedos do ano. Dia de Cosme e Damião. Doce porque as
crianças que podem saem pelas ruas em busca de seus saquinhos abarrotados de
guloseimas, para alegria dos dentistas e pediatras. Azedo porque as crianças de
famílias protestantes são aterrorizadas com histórias sobre macumbas e
demônios.
Então, vamos tentar entender o que
acontece. Como provavelmente esse texto vai gerar o famoso mimimi em algum
lugar, serei breve e tentarei simplificar ao máximo, apenas para observar a atitude
das pessoas.
Quando eu era criança, odiava o dia
de Cosme e Damião. Sendo de família evangélica, eu era proibido de comer doces por
umas duas semanas a partir do dia 27 de setembro. Eu ouvia aquelas coisas
todas, que os doces estavam encapetados, que foram oferecidos ao cramunhão, e
ficava meio assustado. O pior é que eu era obrigado a estudar, e ficava quase
babando olhando as outras crianças se lambuzando de doces. Curiosamente, assim
como eu, essas crianças sobreviviam saudáveis até as férias de dezembro.
Eu cresci e busquei estudar um pouco
para entender o grande perigo desses doces. Procurei saber um pouco mais da
história de Cosme e Damião, e vi que eram pessoas boas, que praticavam o amor.
Vi também que a tradição de distribuir doces se popularizou a partir das
religiões afrodescendentes, como a Umbanda e o Candomblé, onde Cosme e Damião
são sincretizados com Ibeji.
Aí a coisa começou a ficar às claras
na minha cabeça. O problema dos saquinhos está na velha e retrógrada prática da
intolerância religiosa. Essas religiões e suas entidades são demonizadas pelos
protestantes, que afirmam fervorosamente que aqueles que distribuem os doces
são adoradores de demônios. E digo mais: segundo os protestantes, basta comer
um saquinho de doces e você estará trazendo maldição para sua vida.
Péra lá, né? Alguma coisa está muito
estranha nisso tudo. Vou dar um exemplo bastante simples para que todos
entendam. Quem frequenta ou já frequentou igrejas protestantes provavelmente já
viu as famosas campanhas, com sete dias disso e sete dias daquilo. Se você quer
saber, muitos, e digo muitos mesmo, fazem as campanhas, jejuam, dão “oferta$
e$peciai$ semeando a vitória”, e não recebem a graça desejada.
Agora vem me dizer que uma balinha vai
bastar pra destruir a vida de alguém? Quem é mais forte, o Deus que recebe as
orações nas campanhas, o jejum e as oferta$ e$peciai$, ou o Demônio que,
segundo dizem, está debaixo dos pés dos fiéis e ainda consegue dar suas
escapadelas pra lamber as balinhas? Diante de tanta eficácia, não seria
conveniente então substituir as campanhas de sete dias por saquinhos de doces
ungidos instantâneos?
Conheço pessoas de várias religiões
e convivo muito bem com elas, até porque religião não define caráter de
ninguém. Vivemos em um país livre, onde temos o direito de acreditar na
religião que estiver mais de acordo com a particularidade de cada um, e devemos
ser respeitados como cidadãos livres. Antes de olhar, por exemplo, para um
umbandista, que pratica o amor e o respeito ao próximo e à natureza, que
valoriza os mais velhos e canta com brio a sua história e a história do seu
povo, e dizer que ele é um adorador do demônio, seria mais sábio e mais
elegante conhecê-lo, estudar sobre sua religião e entender a verdade que existe
por trás do fanatismo.
O que essas crianças protestantes passam,
assim como eu passei um dia, é cruel demais. Um saquinho de doce para um adulto
é pouca coisa, mas para uma criança é muito. Se sentir excluído machuca.
Enquanto todos comem seus doces, pra essas crianças sobra o sabor amargo da exclusão.
Principalmente para as pobres. Quando o dinheiro dava, eu ganhava algum doce
para aliviar um pouco, mas nem sempre dava.
Acredito
sinceramente que possa ter alguma boa intenção por parte de alguns
protestantes, mas se é para ser assim, então que separem parte do dízimo que
recolhem e comprem doces para suas crianças. Façam que elas se sintam amadas, e
que não se sintam menores ou menos privilegiadas do que os coleguinhas de
outras religiões. Se não querem os saquinhos com as imagens dos santos, façam
saquinhos com desenhos infantis, sem dar espaço para ataques ridículos e
preconceituosos aos outros. As crianças não são culpadas de suas conclusões
religiosas, e esse preconceito todo, com o perdão do trocadilho, já encheu o
saquinho. Ah, só pra não esquecer: macumba é uma árvore.
JJJJJJJ