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Aqui no blog você pode conhecer um pouco dos meus textos, minhas opiniões, minhas preferências... Boa leitura!

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Memórias

MEMÓRIAS
(Lel Amaro)


            Eu nunca tive a minha própria bicicleta. Aprendi a andar de bicicleta tarde, aos oito ou nove anos de idade, em uma bicicleta do meu tio. Quando eu era criança, por volta dos meus cinco anos de idade, meu pai até conseguiu uma bicicleta, e deixou por algum tempo na garagem onde a gente morava. Só que certo senhor abriu o portão da garagem e ficou comendo mosca enquanto algum gatuno levava a bicicleta embora. No final das contas, ninguém sabe, ninguém viu... Talvez por isso eu hoje prefira ficar trancado, protegido dos olhares e dos ouvidos de todos.
            Eu nunca tive patins. Quando eu era criança queria muito ter aqueles maravilhosos tênis com rodinhas, mas eles eram caros demais para o bolso dos meus pais. Uma vez fomos à casa de uns parentes, e uma prima nossa tinha patins, e fomos, minha irmã e eu, tentar subir nas rodinhas. Conseguimos uma boa bronca de nossa mãe e voltamos pra casa com a bunda cheia de terra. A prima eu nem considero mais e tenho meus motivos para isso. Talvez por isso eu hoje não forme opinião com base em fatos isolados. Prefiro ter um raciocínio equilibrado.
            Eu nunca ganhei mesada. Quando eu era criança a vida da gente era bastante complicada. O dinheiro da família era para as necessidades da casa, e não dava pra isso. Fomos ter o nosso primeiro toca discos de vinil quando eu tinha por volta dos meus oito anos de idade, mais ou menos a mesma época que tivemos a nossa primeira TV em cores. A gente não podia escutar CDs, até que eu pude comprar um CD player portátil e ligar no auxiliar do toca discos, por volta dos meus 17 anos de idade. Talvez por isso, hoje eu seja até chamado de pão duro por alguns. Não gasto meu dinheiro com qualquer coisa.
            Eu nunca tive vídeo game. Quando eu era criança, algumas vezes cheguei a brincar um pouquinho em um vídeo game de uns primos, mas nunca nem consegui entender aqueles jogos. A única coisa que eu conseguia era guiar algum fórmula 1 depois que meu primo soprava a fita. Eu queria muito ter, mas era caro demais. Talvez por isso, eu tenha me acostumado muito cedo à vida real, sem vidas extras; essa nossa vida, que é uma só.
            Eu nunca brinquei com amigos na rua. Quando eu era criança pequena, a gente morava na casinha da igreja, porque meu pai era zelador. Nessa época mesmo eu observava como era o comportamento dos pequenos e dos grandes fora do culto, e vi desde cedo que crente assistia novela, crente assistia futebol, crente falava palavrão, e todas aquelas coisas mais que o pastor proibia no culto durante aquele tempo. Eu achava tudo estranho, porque se eu falasse uma palavrinha feia, cinco dedos deixavam minha boca bem mais feia. Talvez por isso hoje eu desconfie tanto da igreja, e permaneço incapaz de xingar na frente dos meus pais.
            Eu nunca pude brincar com meus primos e primas. Quer dizer, às vezes eles brincavam e eu assistia com um medo desgraçado de que alguém fizesse alguma besteira e eu apanhasse enquanto eles riam impunes. Em certos casos, eu até poderia não apanhar, mas era ameaçado na frente de todos, ouvindo que se eu fizesse igual alguém me arrebentaria. Eu morria de vergonha, mas não podia fazer nada. Eu era apenas criança. Ou melhor, era pequeno, porque criança eu não pude ser. Talvez por isso eu tente ser um pouco criança sempre que eu consigo, mas a timidez e o medo de errar estão sempre me travando. Não dá pra recuperar o tempo perdido.
            Eu nunca fui sócio de nenhum clube. Esses clubes com quadras, sauna e piscina. Até hoje não sei nadar, e jamais fui à sauna. Engraçado que muitos ridicularizam pessoas como eu, mas ignoram que cada um de nós tem uma história onde estão as razões para todas essas coisas. Falar sobre tudo isso machuca, pois é mexer em cicatrizes profundas que ainda doem. Talvez por isso, muitos sofrem calados, porque sabem que as pessoas que puderam andar de bicicleta e patins, recebiam mesadas, jogavam vídeo game com os amigos e com os primos e jogavam bola nos clubes, muitas vezes se acham no direito de ridicularizar aos que não tiveram a mesma oportunidade. Mesmo tendo vergonha de mostrar o meu corpo, talvez por não ter sido acostumado com isso nas piscinas e nas saunas dos clubes, ainda assim penso que eu tenho algum proveito disso tudo. Aprendi a viver na escassez de todas essas coisas. Não sou dependente de nada disso.
            Eu nunca fui de falar para qualquer um sobre essas memórias, mas se você que leu este texto até aqui se identificou de alguma forma com as minhas memórias, eu penso que valeu a pena. Se teve uma vida que você julga muito boa e ridiculariza as outras pessoas, o ridículo é você. Pare de ferir pessoas inocentes com suas palavras e atitudes grosseiras. Se você teve uma vida de alguma forma semelhante a minha, não fique lamentando. Não estamos sozinhos nesse mundo. Há muitos como nós! Há muitos que são privados de muitas outras coisas. Pessoas que não tem o que comer, que não tem roupas quentes para o tempo frio, pessoas que não tem água limpa para beber. Se você está lendo este texto, hoje você tem um computador, pode se conectar ao mundo e conhecer novas pessoas. Como eu disse, a vida é uma só. Cabe a nós trabalhar em dias melhores do que os dias passados. Vamos aproveitar o tempo que nos resta?

P.S.: Agradeço aos meus pais que sempre se dedicaram
a oferecer o melhor que podiam para minha irmã e eu.


JJJJJJJ

2 comentários:

  1. Sempre um ótimo texto...vc é o cara meu amigo! ;)

    (qualquer dia resolvemos esse lance da sauna! hehe)

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    Respostas
    1. Deixa isso pra lá Saulim! haushaush Obrigado! Abraços amigo! :-)

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