MEMÓRIAS
(Lel Amaro)
Eu nunca tive a minha própria
bicicleta. Aprendi a andar de bicicleta tarde, aos oito ou nove anos de idade,
em uma bicicleta do meu tio. Quando eu era criança, por volta dos meus cinco
anos de idade, meu pai até conseguiu uma bicicleta, e deixou por algum tempo na
garagem onde a gente morava. Só que certo senhor abriu o portão da garagem e
ficou comendo mosca enquanto algum gatuno levava a bicicleta embora. No final
das contas, ninguém sabe, ninguém viu... Talvez por isso eu hoje prefira ficar
trancado, protegido dos olhares e dos ouvidos de todos.
Eu nunca tive patins. Quando eu era
criança queria muito ter aqueles maravilhosos tênis com rodinhas, mas eles eram
caros demais para o bolso dos meus pais. Uma vez fomos à casa de uns parentes,
e uma prima nossa tinha patins, e fomos, minha irmã e eu, tentar subir nas
rodinhas. Conseguimos uma boa bronca de nossa mãe e voltamos pra casa com a
bunda cheia de terra. A prima eu nem considero mais e tenho meus motivos para
isso. Talvez por isso eu hoje não forme opinião com base em fatos isolados.
Prefiro ter um raciocínio equilibrado.
Eu nunca ganhei mesada. Quando eu
era criança a vida da gente era bastante complicada. O dinheiro da família era
para as necessidades da casa, e não dava pra isso. Fomos ter o nosso primeiro
toca discos de vinil quando eu tinha por volta dos meus oito anos de idade,
mais ou menos a mesma época que tivemos a nossa primeira TV em cores. A gente
não podia escutar CDs, até que eu pude comprar um CD player portátil e ligar no
auxiliar do toca discos, por volta dos meus 17 anos de idade. Talvez por isso,
hoje eu seja até chamado de pão duro por alguns. Não gasto meu dinheiro com
qualquer coisa.
Eu nunca tive vídeo game. Quando eu
era criança, algumas vezes cheguei a brincar um pouquinho em um vídeo game de
uns primos, mas nunca nem consegui entender aqueles jogos. A única coisa que eu
conseguia era guiar algum fórmula 1 depois que meu primo soprava a fita. Eu
queria muito ter, mas era caro demais. Talvez por isso, eu tenha me acostumado
muito cedo à vida real, sem vidas extras; essa nossa vida, que é uma só.
Eu nunca brinquei com amigos na rua.
Quando eu era criança pequena, a gente morava na casinha da igreja, porque meu
pai era zelador. Nessa época mesmo eu observava como era o comportamento dos
pequenos e dos grandes fora do culto, e vi desde cedo que crente assistia
novela, crente assistia futebol, crente falava palavrão, e todas aquelas coisas
mais que o pastor proibia no culto durante aquele tempo. Eu achava tudo
estranho, porque se eu falasse uma palavrinha feia, cinco dedos deixavam minha
boca bem mais feia. Talvez por isso hoje eu desconfie tanto da igreja, e
permaneço incapaz de xingar na frente dos meus pais.
Eu nunca pude brincar com meus
primos e primas. Quer dizer, às vezes eles brincavam e eu assistia com um medo
desgraçado de que alguém fizesse alguma besteira e eu apanhasse enquanto eles
riam impunes. Em certos casos, eu até poderia não apanhar, mas era ameaçado na
frente de todos, ouvindo que se eu fizesse igual alguém me arrebentaria. Eu
morria de vergonha, mas não podia fazer nada. Eu era apenas criança. Ou melhor,
era pequeno, porque criança eu não pude ser. Talvez por isso eu tente ser um
pouco criança sempre que eu consigo, mas a timidez e o medo de errar estão
sempre me travando. Não dá pra recuperar o tempo perdido.
Eu nunca fui sócio de nenhum clube.
Esses clubes com quadras, sauna e piscina. Até hoje não sei nadar, e jamais fui
à sauna. Engraçado que muitos ridicularizam pessoas como eu, mas ignoram que
cada um de nós tem uma história onde estão as razões para todas essas coisas.
Falar sobre tudo isso machuca, pois é mexer em cicatrizes profundas que ainda
doem. Talvez por isso, muitos sofrem calados, porque sabem que as pessoas que
puderam andar de bicicleta e patins, recebiam mesadas, jogavam vídeo game com
os amigos e com os primos e jogavam bola nos clubes, muitas vezes se acham no
direito de ridicularizar aos que não tiveram a mesma oportunidade. Mesmo tendo
vergonha de mostrar o meu corpo, talvez por não ter sido acostumado com isso
nas piscinas e nas saunas dos clubes, ainda assim penso que eu tenho algum
proveito disso tudo. Aprendi a viver na escassez de todas essas coisas. Não sou
dependente de nada disso.
Eu nunca fui de falar para qualquer
um sobre essas memórias, mas se você que leu este texto até aqui se identificou
de alguma forma com as minhas memórias, eu penso que valeu a pena. Se teve uma
vida que você julga muito boa e ridiculariza as outras pessoas, o ridículo é
você. Pare de ferir pessoas inocentes com suas palavras e atitudes grosseiras.
Se você teve uma vida de alguma forma semelhante a minha, não fique lamentando.
Não estamos sozinhos nesse mundo. Há muitos como nós! Há muitos que são
privados de muitas outras coisas. Pessoas que não tem o que comer, que não tem
roupas quentes para o tempo frio, pessoas que não tem água limpa para beber. Se
você está lendo este texto, hoje você tem um computador, pode se conectar ao
mundo e conhecer novas pessoas. Como eu disse, a vida é uma só. Cabe a nós
trabalhar em dias melhores do que os dias passados. Vamos aproveitar o tempo
que nos resta?
P.S.: Agradeço aos meus pais que sempre se dedicaram
a oferecer o melhor que podiam para minha irmã e eu.
JJJJJJJ

Sempre um ótimo texto...vc é o cara meu amigo! ;)
ResponderExcluir(qualquer dia resolvemos esse lance da sauna! hehe)
Deixa isso pra lá Saulim! haushaush Obrigado! Abraços amigo! :-)
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